130 anos de lembranças, memórias e ressignificações.
E o que mudou?
Lembro ainda de forma
muito presente em minha memória dos 100 anos da abolição da escravatura em
1988. Eu era criança, uma criança negra de periferia estudante de uma escola
pública, não por acaso o único nego de minha sala de aula. Justamente por isso
meus colegas resolveram fazer uma festa para comemorar a data, como se a mesma
apagasse os 100 anos de preconceitos e racismos que eu ainda sofria. Mas enfim,
eu fiquei feliz! Naquele momento eu não entendia muito o que acontecia ao meu
redor, mas parecia legal.
Já se vão 30 anos
daquele 13 de maio de 1988, e hoje são 130 anos de quando a princesa Isabel do
alto de sua nobreza dava um passo importante para seu reconhecimento na
história. Ao assinar a Lei áurea a princesa passa a ser reconhecida como uma
heroína nacional que libertou os escravos. Mas libertou de que?
Minha narrativa inicial
e a redundância de meu questionamento fazem parte de um quadro pessoal que é
recorrente nos espaços de luta e militância do movimento negro desde sempre,
pois a liberdade assinada no papel nunca veio associada a uma igualdade efetiva
entre negros e brancos. Ainda hoje em pleno século XXI nós negros e negras
carregamos em nossa pele o estigma de um processo de exploração humana que foi
imputado aos nossos ancestrais sequestrados da África.
O silenciamento imposto
a história oficial que invisibilizou a presença de negros e negras na
construção da republica do Brasil também se manifestou em uma política de
Estado, que por de trás de um “Mito da Democracia Racial”, silenciou e assumiu
uma posição de neutralidade ou ainda pior de negação do racismo. O efeito desta
postura de Estado sentimos hoje de forma latente, pois se anos atrás se falava
em um racismo velado, hoje este é explícito, principalmente nas redes sociais.
Negros e negras ainda
hoje são preteridos nos espaços de trabalho, não se veem representados nos
espaços de poder, sou poucos, quase raros aqueles que ocupam um espaço de
destaque na sociedade. Ainda hoje somos vistos de maneira discriminatória pela
sociedade tradicional que impões um padrão estético que não é o nosso. Nossos
corpos negros ofendem, são exotizados e vulgarizados. A nós foi imposta um configuração
social que nos limita e nos oprimi diariamente por um padrão europeu
hegemônico.
Mesmo assim somos
otimistas. Há sim uma mudança em curso. As políticas de ações afirmativas no
campo educacional desencadeadas com a Lei 10.639/03 e a política de cotas nas
universidades provocaram o debate e trouxeram a tona as pautas do movimento
negro para o cenário público, o que possibilitou, ainda que de forma limitada,
a visibilidade de uma História da África e da cultua afro-brasileira nas
escolas e nas universidades. Ao mesmo tempo essa mudança de postura do estado
incentivou o surgimento de novos coletivos do movimento negro em vários espaços,
reivindicando o debate e manifestando seu protagonismo.
Esse cenário demostra
que o Brasil de 2018 não e o mesmo de 1888. Mudou sim! Mas ainda é muito pouco
para uma parcela significativa da população que ainda hoje se vê silenciada em
suas reivindicações, que vê suas pautas negligenciadas pelos gestores públicos e
seus espaços de resistência relegados ao esquecimento institucional. Queremos
mais, muito mais, pois para que possamos nos orgulhar de um país que se
reconhece como uma diversidade, devemos dar espaço para que todas as culturas
que formaram este país tenham seu devido reconhecimento e assim possamos ser
sim um país democrático, justo e igualitário.
130 anos e continuamos
lutanto!!!

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