"A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une" Milton Santos

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

KIZOMBA: uma expressão de autoafirmação do povo negro.

A Kizomba...

Que nasce na África antes mesmo da chegada do Europeu, se ressignifica aqui no Brasil. A Kizomba é a festa do povo negro, uma celebração de nossa autoestima expressa pela arte, pela cultura e pela manifestação. É um encontro. Um encontro entre o passado e presente, entre a realidade e os mitos, é a força de uma nova história que vem sendo construída aqui no Brasil, uma história contada e vivida pelo povo negro que agora assume seu protagonismo e escancara sua beleza e sua força de expressão.


Manifesto das Mulheres Negras - Junf

Cartaz da Kizomba 2014


A Kizomba é a valorização, é a voz daqueles que por muito tempo foram calados. A Kizomba é alegria é o palco pintado de preto, é o som do tabor batendo forte no peito de todos e contagiando o público da praça.
Alguns levantam a voz para falar de luta, de conflito contra o opressor, mas nossas armas são diferentes, queremos o reconhecimento queremos a livre expressão cultural, queremos também dominar a técnica e com ela promover a verdadeira liberdade que nos foi negada durante mais de um século de abolição. Pois, só quando dominarmos a técnica, ocuparmos espaços de protagonismo na sociedade é que realmente conseguiremos a verdadeira libertação e tão a sonhada igualdade.


 Painel sobre a KIZOMBA  Artista: Braziliano

Defendemos a NEGRITUDE assumida, e o palco, a praça, é o melhor espaço para isso, defendemos as cores da África, o cabelo crespo, a estética Afro, os heróis negros de nossa história: Zumbi dos Palmares, Carolina Maria de Jesus, Luiza Mahin, Tereza de Benguela, João Cândido, Milton Santos, José do Patrocínio, entre outros. Queremos nos ver nos livros de História, nas galerias, nos Museus nas exposições. Queremos o espeço que nos foi negado...

Braziliano confeccionando o painel

Mais do que uma festa do dia 20 de novembro, é a nossa forma de refletir a Consciência Negra, de dizer que estamos aqui e que queremos espaço. Somos cultura, somos educação, somos religiosidade, somos ancestralidade, somos NEGROS e com muito ORGULHO!

Grupo de Dança Afro Ewá Dandaras do Museu Treze de Maio. Foto Andressa Duarte

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O que significa educar para a diversidade?

Na Semana da Consciência Negra o debate vem a tona. E junto com ele o questionamento, o que é a tal Lei 10.639? Por que a obrigação em aplicá-la? Eu poderia aqui elencar uma série de antecedentes históricos que justificariam esta necessidade, mas não. Vou fazer uma análise humildemente pessoal.
Desde muito jovem quando optei por ser um educador, tracei para mim um ideal. O ideal de mudar o mundo, e para isso assumi valores que me diziam que eu deveria ajudar as pessoas através do conhecimento, e que com ele estas pessoas pudessem se libertar das amarras da exploração social e estivessem prontas para exercerem sua cidadania plena.
Percebi ao longo desta minha caminhada, que a palavra EDUCADOR era muito pesada, que não bastava conhecimento, métodos, uniformes, gritos ou obrigações, educar estava além disso, era preciso acreditar no que eu estava ensinando, pensar a educação, refletir os conceitos que eu ensinava.
Optei pela história, e esta me levou a arqueologia, a filosofia  a sociologia... aos movimentos sociais, pois eu queria aprender com as pessoas. Aprendi, que eu educo para os outros, para a sociedade, para que a cidadania, aquela defendida pelos grandes teóricos e idealistas, u dia seja verdadeiramente plena.
Não são poucos os filósofos clássicos e contemporâneos que falam em um autoconheimento e de práticas que levam a isso. No entanto, a sociedade atual prefere reproduzir conceitos de economistas e políticos. Antes de falar dos conceitos dos outros temos que assumir para nós mesmos o que queremos.
Se queremos uma sociedade, precisamos ser sociais, se queremos ser humanidade, primeiro temos que ser humanos, se queremos falar em diversidade, temos primeiro é que reconhecer o outro. As legislações estão aí, LDB, PCNs o Pacto do Ensino Médio entre outros, mas será que todos nós caminhamos no mesmo sentido, rumo ao reconhecimento, a educação, as valores civilizatórios?
Bem não sei. Mas reproduzo aqui Milton Santos, ainda precisamos aprender a ser humanidade...

domingo, 16 de novembro de 2014

Sobre o republicanismo e algumas liberdades individuais.

O mês de novembro e mais especificamente a semana que acabamos de entrar, a Semana da Consciência Negra, nos remete a uma reflexão necessária.
Entre os dias 14 e 20 se novembro encontramos algumas datas simbólicas para nossa República, e entre elas destaco as seguintes: 14 de novembro Massacre de Porongos, 15 de novembro Proclamação da República e Dia Nacional da Umbanda, 16 de novembro Revolta da Chibata e 20 de novembro a morte de Zumbi dos Palmares. E não coincidentemente todas as datas remetem a uma mesma análise, sobre liberdades e direitos individuais, um tanto contraditórias, explico porque.
A dita República brasileira proclamada pelo Marechal Deodoro da Fonseca, é um muito bem acabado conceito teórico articulado politicamente pelas elites que vem a pôr em prática como dizia a historiadora Emilia Vioti da Costa, um Estado Burguês no Brasil. Um Estado liberal, com garantias individuais e Laico.
Mas a contradição se estabelece desde seu início, pois as liberdades do Estado são garantidas e asseguradas a um grupo hegemônico e específico, a burguesia, o qual não contemplava os negros recém libertos e e nem dava condições a que esses se inserissem na sociedade, mantendo e reproduzindo mesmo após a consolidação deste Estado as mesmas práticas sociais e excludentes dos tempos de escravidão.
O estado Laico por assim dizer continua, mesmo hoje, reproduzindo os ditames de uma única religião  discriminando práticas religiosas de qualquer outra forma de expressão se não a tradicional.
As estruturas criadas na república e consolidadas na constituição de 1891 justificavam e reproduziam as necessidades das camadas hegemônicas que a partir de ocuparam as estruturas de estado para controlar o sistema econômico e a sociedade.
Em síntese a República criada no Brasil nunca foi para todos e sim para poucos, a reflexão da Semana da Consciência Negra é necessária se quisermos evoluir para um Estado Plural que reconheça as diferenças e permita uma vida harmoniosa e sem preconceitos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

20 de Novembro: dia da consciência Negra! (ou branca?)

Texto publicado na íntegra no jornal Diário de Santa maria no dia 17/11/2013


Idealizado na década de 70 e defendido MNU (Movimento Negro Unificado) e pelo poeta gaúcho Oliveira Silveira o dia da morte de Zumbi dos Palmares passa a ser definido como um dia para se pensar a história e a presença do Negro no Brasil, com uma visão diferenciada e afirmativa. Desde então o dia da consciência negra põe um dedo em uma ferida aberta na história do Brasil, pois nos põe a pensar essa história com um olhar mais crítico e reflexivo. Mas será que o dia 20 de novembro não deveria ser o dia da Consciência Branca?
Explico por que.
Lendo recentemente o autor Ricardo Franklin Ferreira em sua obra “Afro Descendente: Identidade em Construção”, revi um pouco minha própria construção de identidade, mais ainda, o reconhecimento da minha negritude e minha atitude afirmativa. Na obra autor faz um estudo a partir do reconhecimento da identidade negra de um personagem, João por acaso, que facilmente pode ser comparada ao processo de formação de identidade de vários afro descendentes em nossa sociedade. Uma identidade repleta de contradições, negação, afirmação, ativismo, fruto do nosso próprio processo histórico de formação, onde me vi no personagem, mas que traz a tona uma reflexão, por que rever a minha identidade? Será que sou eu, individuo negro, que devo rever este processo?
Cabe aqui um pequeno resgate deste passado histórico de construção de uma identidade nacional, que negou, ou ainda nega a presença negra. Desde o processo de nossa Proclamação da República (1889), ou como alguns historiadores afirmam em dizer, processo de criação de nosso estado burguês, o Brasil tentou mostrar para o mundo um perfil de um estado novo, burguês, branco, pronto para ascender ao status de um estado capitalista como todo o resto do mundo. E nesse estado vigorava a tal da “democracia racial”, pois não existiam escravos nem problemas de segregação. Ou seja, negros e brancos viviam em perfeita harmonia (como até hoje!). No entanto, o Brasil de outrora nos apresentava uma falsa democracia racial, que nem de longe representava a realidade cotidiana do Brasil. O que se apresentava era um país que precisava mostrar ao mundo que queria ser desenvolvido e que as mazelas da escravidão e do colonialismo estavam superadas, e que o Brasil como a Europa estava pronto para entrar na “Bélle Époque”.
No entanto, os espaços de socialização do negro desde sempre foram segregados. Antes a senzala, depois o quilombo e mais tarde o clube social negro, se bem que esse já gozava de um ‘status’ melhor, estava dentro das cidades, na periferia, mas nas cidades, em um lugar onde ao menos os negros eram vistos. A realidade pouco mudou do século XVI para cá. O racismo de hoje é maquiado com uma série de políticas publicas que não saem do papel, pior desvelam um racismo ainda presente em nossa sociedade diariamente e que insiste em ser negado. O estado ainda não vislumbra a questão racial com os olhos da inclusão, as dificuldades são de ordem estrutural e sobre tudo etnocêntricas o que transforma as políticas públicas em meros engodos institucionais, pois perpassam pela falta de estruturas físicas, recursos humanos e investimentos, principalmente na área da educação.
E falando em educação, o debate procede neste 20 de novembro, pois em 2013 celebramos 10 anos da Lei 10.639. Lei esta que altera a LDB 9395/96 obrigando o ensino da História da África e da Cultura Afrobrasileira. Porém há muito pouco a se comemorar nesses 10 anos. A aplicação da Lei não é efetiva. O pouco que acontece em relação a aplicação da mesma acontece por iniciativa de alguns professores identificados com a causa, ou por ideais, ou por convicção étnica. E aí reside mais um de nossos problemas pois a questão da educação se configura na principal arma para superação do racismo institucional, desde que percebamos que é na formação de nossos jovens é que poderemos superar essa tradição etnocêntrica que nos ensinou desde sempre uma história linear, europeia e branca não respeitando as diferenças e a diversidade cultural que formou nosso país. No entanto os esforços institucionais para a aplicação da Lei 10.639/03 tem sido muito poucos. Os debates acadêmicos são muitos e se avolumam nos cursos superiores, mas a distância entre o Ensino Superior e a realidade dos bancos escolares da Educação Básica é muito grande, um verdadeiro abismo de contradições.
Percebemos dificuldades enormes no que tange a efetivação da mesma que vão desde a falta de recursos didáticos, falta de formação para os educadores entre outros. As escolas ainda não recebem professores com formação adequada para a aplicação da Lei pois o processo de formação de nossos educadores segue a mesma linha etnocêntrica e linear não contemplando ainda toda a diversidade da sociedade que vivemos.
Em Santa Maria o debate em torno da causa da educação e da própria consciência negra já assumiu outras proporções com a criação em Maio do GT de implantação da Lei 10.639 no município. A partir desse grupo professores, pesquisadores, acadêmicos e integrantes do movimento negro tem se reunido para discutir a questão da educação e propor ações efetivas para a superação dos problemas neste campo.
Mas a questão, como dissemos no início, supera o debate a proposição. A questão racial no Brasil deve ser debatida por todos deve ser assumida por todos independente de ideologias ou partidarismos, pois é uma questão de humanização e superação de problemas sociais que estão a nossa frente diariamente, e que negamos ao nos omitirmos do debate. A questão da superação do racismo no Brasil é uma questão que deve superar as pautas governamentais e partir para ações da sociedade civil cobrando e fiscalizando  a aplicação de leis.
No dia 20 de novembro devemos refletir sobre a consciência, negra, branca, indígena, judaica, cigana, polonesa, italiana e tantas outras que formaram e forma a diversidade cultural de nosso país, para que em um futuro muito próximo essa realidade de afirmações seja uma realidade de afirmação do povo brasileiro reconhecidamente de diversidade

domingo, 2 de novembro de 2014

Democracia e sociedade...

Recentemente estive no nordeste e lá tive uma aula de diversidade e respeito. Dentre as tantas expressões culturais que tive o prazer de observar uma em especial me chamou a atenção, o grupo de meninos do Mestre Dedé, uma apresentação cultural, verdadeiramente expressão da cultura nordestina. Filho de caboclos e quilombolas o Meste Dedé ensina a adolescentes do interior do Rio Grande do Norte a cultura de seus antepassados... brasileiros. O Mestre Dedé recebe a bolsa família e com esse dinheiro compra caixas de papelão e cria as fantasias dos adolescentes de seu grupo...
Mas não é sobre isso que eu quero falar, quero falar de democracia, ou melhor de instituições democráticas, pois não sabemos o que é isso nos limitamos a votar e dizer que não gostamos nem dos políticos nem da política. Mas até que ponto nós participamos? Quando exercemos nossa verdadeira cidadania? Bem a resposta é quase unanime.  Votamos! E depois... delegamos as decisões a outros e deixamos que eles nos representem, mas será que isso é democracia, será que estamos cientes do que estamos fazendo.
No Brasil temos o mau costume de reclamar de tudo, mas na hora de contribuir participar "eu nunca posso". Lutamos tanto por uma democracia e quando a temos não sabemos utilizá-la. Reclamar de uma eleição é democrático, mas reclamar de quem vota é um tanto incoerente.
A vida em sociedade é uma necessidade e para ela foram criadas regras de convívio consolidadas pelo nosso Estado de Direito. O Direito Moderno resultado das ideias liberais do século das luzes nos deram a noção de Estado Liberal, um estado que cria um Direito Uno, que unifica povos, culturas, sociedades e permite que dentro de um mesmo espaço as opiniões divergentes vivam e convivam...
O Brasil é um Estado de Direito aos moldes do Estado Liberal do século XVIII, "Uno", unificado, diversificado e nacional.
Por isso retomo aqui minha admiração ao Meste Dedé.


Por mais aulas de sociologia nas escolas...

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Por mais dias do professor...




No exercício da democracia a educação é instrumento fundamental para a construção de uma nova cidadania e o momento que se apresenta é mais do que oportuno para uma análise.
O Pacto do Ensino Médio e sua aplicação prática, o Ensino Médio Politécnico são sem dúvida alguma uma oportunidade ímpar, uma conquista para os educadores. Podemos repensar o nosso fazer pedagógico e construir um novo currículo que seja verdadeiramente um reflexo da sociedade e dos anseios dessa sociedade que se expressa em nossa comunidade escolar. O debate é efervescente e necessário, precisamos rever nossas pautas, precisamos rever nossos conteúdos, precisamos rever o objetivo do ensino dentro da sociedade brasileira, precisamos aprender a avaliar, a nos avaliar, a ouvir e sentir a demanda que vem do nosso educando, os jovens. Jovens que precisam ser vistos como jovens que são, mais do que isso eles não podem mais ser vistos como objetos de um projeto educacional, mas sim como agentes do processo, como protagonistas, precisam ser ouvidos e avaliados dentro de seus contextos particulares, de seus lugares de identidade, de suas linguagens e expressões...
No entanto, precisamos ser realistas, em que escola estamos fazendo essa nova leitura? Escolas sucateadas, sem laboratórios, sem funcionários, com professores doentes, mal remunerados. É isso, a realidade contradiz a teoria, os números não nos representam, o professor que está em sala de aula continua vendo um mundo utópico pautado pelo seu próprio idealismo, pois a cada dia ele se depara com a mesma situação, com realidades que só uma sala de professores pode expressar. Um campo pulsante de angustias e tensões que ainda carece de um entendimento mais condizente com sua realidade.
Os dados ditos “oficiais” manipulam a opinião pública distorcendo a realidade, que desde sempre desrespeita o professor como profissional, pois todos opinam na educação, qualquer pessoa assume a gestão da educação e pauta-se pelo poder simbólico de uma estrutura que não respeita o fazer pedagógico ou a construção do conhecimento de nós educadores. A educação continua sendo um campo de utopias teóricas e experiências partidárias.
Minha realidade cotidiana, apesar do idealismo, que ainda me permite lutar e nadar contra a maré, não pode cerrar os olhos para o que vejo: salas depredadas, goteiras, pátios sujos, falta de professores... bem a escola continua doente, mas ela é só um reflexo da sociedade.


E VIVA O DIA DO PROFESSOR!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A rua venceu... o quê?

Me peguei ontem revirando minhas bagunças( que não são poucas) quando me deparei com uma revista Caros Amigos do ano passado, que trazia na capa a manchete:"A rua venceu". Foi inevitável dar uma nova folhada na edição, e o questionamento imediado veio a tona... venceu o que?
A um ano e pouco a manchete era essa, e os debates efervesciam a cada esquina... e realmente havia uma movimentação diferente, era algo orgânico, novo, curioso, mas realmente algumas movimentações aconteciam: o congresso suspendeu o recesso, em algumas cidades a passagem e ônibus não subiu, invadiram câmaras de vereadores, políticos tiveram que se manifestar e ponto.
O que naquele momento parecia algo sem precedentes em nossa história, sem rótulos e até mesmo sem o controle partidário ou midiático, deu espaço ao ostracismo, e a repetição este ano das mesmas pautas de sempre. São inúmeros os candidatos que hoje se intitulam o pai da criança, ou pior nem lembram das pautas reivindicadas ano passado.
Não me surpreende quando vejo muitos dos candidatos a reeleição nem sequer citarem as pautas das manifestações  do ano passado e manterem seus discursos na esfera da superficialidade apelando como de sempre para campanhas com apelos ridículos e com um sorriso sínico no rosto (de novo).
Infelizmente continuamos nesse país a não ter cidadania e sim privilégios e ninguém se atreve a discutir a verdadeira democracia, e as fragilidades de nossa democracia, continuamos reprodutores da velha ordem republicana e burguesa, perpetrando o continuismo mantendo os velhos hábitos e as mesmas práticas de tempos remotos. Lembro o saudoso José Saramago que dizia que nossa democracia era como uma santinha em um altar, ela está lá, mas ninguém realmente se atreve a discuti-lá, mas ela "está lá!"

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

VENDO TODAS!

Não é radicalismo, apenas coerência, não posso mais compactuar com algo que ofende a minha sanidade e minha ética. Os recentes casos de racismo nos estádios de futebol só reforçaram minhas reflexões que a muito tenho assumido como práticas. 
O velho jargão de que  "o futebol é o ópio do povo" ganhou força nos anos 70 em meio a ditadura militar e volta a ecoar em nossa sociedade em tempo de liberdades e avanço das políticas públicas, pois não é de hoje  que a mídia e o futebol andam juntas e manipulam o povo brasileiro, desviando os olhares da nação  e criando falsas pautas para que a reprodução e a permanência de velhas estruturas se mantenham e a velha ordem social não seja questionada.
Não posso concordar com as discrepâncias apresentadas pela mídia onde jovens são criados como produtos por seus empresários ganham salários milionários e ofendem assim nossa realidade diária e reproduzem em campo todas nossas mazelas sociais através da violência e da falta de educação.
Pior do que isso, nas arquibancadas e no entorno dos estádios assistimos a uma banalização da violência, torcidas organizadas (e desorganizadas) destilam seu fanatismo com requintes de crueldade, agredindo e até matando pessoas em nome de algo que não tem sentido algum. E aí o que justifica essa redução do comportamento humano a barbárie? Seria um espetáculo de mídia que rende milhões para as grande empresas e para os políticos, pois só eles é que podem lucrar com essa loucura. 
Definitivamente não posso concordar com a relativização do racismo em TV aberta, pela criação de uma pauta que atende a interesses que não são humanitários. Mais uma vez o povo é manipulado, chega de nivelar por baixo, de concordar com tudo, de pautar os problemas sociais pela mídia, chega de fanatismo!

Tudo a venda...


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ancestralidade

VALORES CIVILIZATÓRIOS AFRICANOS: A ANCESTRALIDADE

Nossa educação cartesiana, metódica e eurocêntrica não nos permite ouvir os mais velhos e colher deles todo o conhecimento armazenado e transmitido através da oralidade. O enciclopedismo do Iluminismo do século XVIII é um dos grandes responsáveis por isso, desfazemos dos saberes populares, do conhecimento  das pessoas mais simples e é assim exatamente o que o colonizador queria, limitar a nossa capacidade de pensar por nós mesmos de construir o nosso modelo de educação e de conhecimento e sim reproduzir modelos europeus como um padrão civilizatório.
O respeito aos mais velhos entre as culturas tradicionais é um dos pilares da civilização, pois está na memória deles todo o conhecimento do universo eles são o vínculo com a hereditariedade do conhecimento, mais do que isso são um pouco de nós mesmos.
A ancestralidade transcende os vínculos das famílias tradicionais, todo o ancião merece respeito ele é o Mestre da Cultura.
Refletindo sobre isso lembro do meu pai, seu Lauro Macedo, um típico Griô, guardava em sua memória a tradição e as histórias de minha família, histórias que se confundem com a própria história do TREZE (hoje Museu Comunitário Treze de Maio).
Do alto de sua simplicidade me repassava seus valores, honra, simplicidade, trabalho... e sobre o trabalho algo muito marcante, pois segundo ele “Negro” nasceu para trabalhar e ponto. Mas ao mesmo tempo me contava histórias dos lugares por onde passou, dos parentes que tinha espalhado pelos pampas,  das lembranças do tempo de tropeiro. Lembranças que me despertaram o interesse pela história, sobretudo a minha história, a história do negro no Rio Grande do Sul.

 Mestre Dedé, grande Mestre da cultura popular do interior do Rio Grande do Norte



Mestre Curió, uma lenda viva da Capoeira

Mais do que isso aprendi com pessoas muito simples como o Mestre Dedé um exemplo da cultura popular tradicional de um Brasil que não aparece na TV, mas é fruto de nossa história, filho de indígenas, aprendeu como caboclo os afazeres e a dança de seus ancestrais, e misturou, criou e assim deu origem a uma ova cultura, brasileira. Os meninos do Mestre Dedé me surpreenderam na apresentação cultural da Teia da Diversidade, algo tão simples mas recheado de uma emoção quase visceral, algo natural... anscentral.
É isso que aprendemos com nossos antigos, cultura, tradição, valores, que do academicismo ao cotidiano muito tenho a aprender.

Kabengele Munanga, Griô da academia, referência a ser seguida


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

E o Rio Grande do Sul mostra sua cara... de novo?

DE NOVO A INTOLERÂNCIA

Mais uma vez o estado do Rio Grande do Sul é assunto na mídia, e não é bom escrever isso. Depois dos depoimentos da população de Caxias do Sul contra os imigrantes, dos gritos de “macaco” da torcida do Grêmio contra o goleiro Aranha do Santos agora foi o incêndio criminoso  ao CTG em Santana do Livramento  onde seria realizado o casamento gay. Os fatos são preocupantes pois em todos os três casos a uma relativização da mídia e da opinião pública em geral que não dão a verdadeira importância ao que está acontecendo. O conservadorismo e o preconceito estão  desfilando e destilando sua maldade em todos os cantos. Como a Ku Kux Klan nos Estados Unidos desde o final do século XIX estamos vendo uma reprodução quase diária de atitudes racistas, homofóbicas e preconceituosos  que reproduzem seus pensamentos antes silenciosos.



(kkk - EUA)

Atacam diretamente a dignidade humana, em nome da moral, da família e da tradição, como defensores dos ideais  farroupilhas. E assim os crimes vão acontecendo cada vez com mais freqüência, cada vez com mais intensidade, cada vez com mais violência.
Enquanto isso no congresso nacional tramita 8 anos uma lei que pune  os crimes de preconceito racial e homofobia, esta tramitação lenta se justifica pela ação de uma bancada evangélica que em nome de sua moral e ética desconsidera a diversidade e  não reconhece a diferença, apelando aos conceitos mais retrógrados  e conservadores para preservar o estatus quo de uma sociedade pura(como os arianos de outrora).




Mas minha analise vai mais longe, por que no Rio Grande do Sul novamente?
Não vou cair na pieguice de fazer um resgate histórico de todo o processo de formação de nosso estado, mas quero apelar para nossa consciência, o que acontece não é por acaso, nosso bairrismo criou uma leitura sobre o “bom gaúcho” superior a tudo e a todos que se sente ofendido (ou amedrontado) quando o diferente se projeta e o ameaça.  A personalidade do gaúcho que por muitas vezes foi admirada e até mesmo invejada pela sua altivez, sua politização e seu espírito combativo de outros tempos hoje é substituída pela postura racista e preconceituosa, postura de um povo que vê dia após dia seu estado despencar nos índices de qualidade de vida, na qualidade dos serviços e maquia hipocritamente sua má educação e suas escolas precárias com avaliações fajutas para justificar uma pauta de governo. Bem o resultado está aí uma sociedade que reproduz em atos o que ela pensa... “e se penso logo existo” li isso em algum lugar.


Me pergunto, afinal onde estamos? Ou onde vamos parar?

Bem, no meu inconsciente eu diria:

"Que sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra"

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Um pouco de política, na minha modesta opinião

Uma breve leitura do início da campanha eleitoral na TV solicitada pelo jornal "Diário de Santa Maria"


Não há como começar a falar de eleições 2014 sem mencionar a tragédia que levou o candidato Eduardo Campos. O fato pegou todos de surpresa, gerou uma comoção nacional e mais do que tudo impactou a campanha eleitoral desde o seu início.
Acredito que a morte de Eduardo Campos virou um fato político, vários candidatos capitalizaram em cima da morte de Eduardo Campos, mais do que isso, nasceu desta tragédia um slogan eleitoral natural: “Não vamos desistir do Brasil” adotado por todos .
Desrespeitoso, frio, maquiavélico, não sei qual o termo exato para descrever a situação criada, mas o que aconteceu é que todos os partidos independente de suas bandeiras ideológicas montaram no trem da história que passava e rechearam suas campanhas de mensagens em homenagem a Eduardo Campos tentando seduzir seus eleitores. Engraçado mas o inimigo de antes virou o político saudoso, o mártir.
Mas olhando com mais frieza inicialmente a campanha eleitoral para presidente há um antagonismo claro entre o PT  de Dilma e o PSDB de Aécio. De um lado uma Dilma tentando passar um discurso mais humano sensível, mas pautado por suas realizações nos últimos quatro anos com ênfase é claro no campo social: combate a miséria, obras do PAC,  etc. Mas sobretudo justificando os problemas visíveis com as crises internacionais. Nítido também fi o apelo a força das mulheres como lideres e o apoio manifestado desde a eleição passada.
De outro lado Aécio Neves, vem com um discurso conciliador, usando de uma oratória invejável que é de sua característica, reconhece as realizações do governo atual, mas destaca os pontos negativos do governo atual e apela para a mudança como forma de corrigir os erros e fazer diferente.
Os dois partidos apresentam plataformas viáveis o que difere é a forma de apresentá-las.
A morte de Eduardo Campos também traz uma nova situação, a candidatura de Marina Silva. Uma sucessão natural, questionável, mas uma nova situação que pode fazer pender a balança eleitoral.
Quanto aos partidos menores estes centram seu ataque ao partidos majoritários e da base governista, e nas criticas as formas de agir do governo em relação a vários temas, entre eles, inflação, segurança, educação. Fazem campanhas quase caricatas, para não dizer cômicas.
Para o Governo Estadual acredito que teremos um pleito mais concorrido acredito que temos quatro grandes forças no estado: Ana Amélia Lemos, Tarso Genro, José Ivo Sartori e Vieira da Cunha.  Todos apoiados pela força de suas siglas e coligações muito bem articuladas, um tanto contraditórias, mas articuladas.
Como no cenário nacional, todos os candidatos fizeram uma homenagem a Eduardo Campos, com um destaque especial  a figura de Beto Albuquerque que em decorrência do fato assume a vaga na chapa como candidato a vice-presidente. Outra característica marcante nas campanhas para governador foi um forte apelo as histórias dos candidatos, uns com mais destaque a história política, outros com mais destaque a história pessoal, mas todos procuraram se apresentar como candidatos que tem uma história no Rio Grande do Sul, apelando claro para o nosso peculiar regionalismo.
Tarso Genro como não poderia deixar de ser apelou para o continuísmo, para o diálogo, característica marcante de seu governo. Ao mesmo tempo destacou o alinhamento político como o Governo Federal e destacando também as realizações no campo social. Viável, mas pouco empolgante.
Ana Amélia Lemos, conclama todos a uma campanha limpa, ética e sensivelmente usa de recursos da mídia para chamar a atenção. Seu discurso no início tem pouco conteúdo, pois apela só para a mudança com criticas ao governo atual. No entanto, seu partido tem uma base de oposição relevante o que faz a diferença.
José Ivo Sartori traz para o cenário estadual o que foi marca em sua gestão em Caxias do Sul. Com o slogan: “Meu partido é o Rio Grande”, faz um discurso pautado pela conciliação e pela simplicidade no trato das questões, sem grandes antagonismos ideológicos e com muita vontade de trabalhar. Mesmo começando sua apresentação na TV em plena Praça Saldanha Marinho, percebo que sua campanha tenha como ponto fraco a questão de Sartori ser muito pouco conhecido fora da serra gaúcha.
Vieira da Cunha chama atenção pela consulta popular, seja pela internet ou através de plenárias Vieira da Cunha apela para um certo populismo e para a herança ideológica de Leonel Brizolla.
Independente das particularidades de cada campanha o que foi recorrente em todos os candidatos foi a homenagem a Eduardo Campos, fugindo do clamor emocional de toda a nação, outras questões foram recorrentes. Temas como Educação, Saúde  e Segurança, foram presentes em quase todas as falas de presidenciáveis a deputados estaduais.
No entanto, é recorrente também o descaso quanto a questões como Cultura, Direitos Humanos.
No meu ponto de vista ainda é muito cedo para definir melhor ou pior, mas já podemos ver o caminho que será traçado por vários candidatos, seja pelo continuísmo, ou seja, pelo discurso de mudança.  O que gera na população e principalmente em mim certo repúdio, pois apelam para a ignorância do povo: “Votem em mim por que eu fiz!” ou “Votem em mim por que eu vou fazer!”. Não preciso de programa eleitoral para saber quais são os verdadeiros problemas do meu estado ou do país, precisamos sim é de atitudes e compromisso.

Feliz aniversário...

FELIZ ANIVERSÁRIO BRASIL!



Mais um sete de setembro se aproxima, e lá se vão 192 anos desde o dia em que D. Pedro I as margens do Ipiranga gritou: “Independência ou Morte!”  Não entrando no mérito da questão se houve ou não um grito, o que me questiono nesse momento é sobre a construção  de nossa identidade nacional, será que nasceu mesmo?
A questão é bem mais profunda e carece de uma análise criteriosa. Os 192 anos de história nos apresentam muito mais do que uma nação moderna... ou fruto da modernidade, o Brasil de hoje é fruto de nosso processo de exploração colonial que deixou uma série de mazelas que se refletem principalmente em nossa própria identificação nacional.
Temos hoje dificuldade de achar uma identidade nacional comum, sendo um país de dimensões continentais, temos diferenças marcantes de norte a sul do país, diferenças que fruto dos nossos antagonismos sócio econômicos.  Entre eles destaque a questão da educação, como base de uma formação técnico científica foi sempre relegada a uma elite européia e com uma temática eurocêntrica o que nos causou um atraso enorme no campo científico e no campo social pois perpetraram um racismo institucionalizado dentro das escolas que mesmo públicas nos dias atuais eram para poucos.
O reflexo desta educação elitizada e eurocêntrica  se reflete em outros campos como cultura, saúde, segurança entre outras demonstrando uma fragilidade institucional de nosso estado, que nasce a luz de privilégios colônias e cresce em seu aparato burocrático reproduzindo dentro de nossa estrutura política uma tradição de corrupção e manutenção de espaços de poder par poucos. Temos medo de alterar a ordem instituída e realmente debater problemas seculares, vivemos de um eufemismo bucólico que maquia nossa realidade. A corrupção é presente e parte da cultura de estado, será ela nossa grande identidade nacional? Tomara que não.

Enfim que venha mais um sete de setembro e Parabéns ao Brasil das desigualdades!

Texto publicado originalmente no jornal "A Cidade" dia 05/09/14 

Consciência Negra... ou Branca?


Imagens e reflexões


Certas explicações fogem a lógica científica ou aos métodos tradicionais que a educação e os valores da sociedade ocidental nos impõe, a questão é que nem tudo pode ser explicado mesmo, só observado. Por isso a natureza desde sempre encantou o homem e foi sembre o espaço de busca de encontro de leitura do que nós muitas vezes não encontramos, mas para essa leitura precisamos estar no lugar certo... Não dá pra ir de carro, não é preciso comprar e sim buscar...



Fim do dia... inspiração para a revolução


Essa mereceria uma capa de livro de auto-ajuda

Inquietações

SOBRE TORCIDAS E RACISMO NA MÍDIA!

Não é de hoje que protesto contra o racismo institucionalizado em nossa sociedade e que desde sempre é maquiado por uma falsa democracia racial, a questão é que todos jogam a culpa do racismo em uma herança colonial escravocrata, mas até quando vamos viver dessa herança, toda vez que alguém se sentir ameaçado vai reagir como uma animal e desumanizar o outro por causa de uma oposição seja ela futebolística, política ou econômica? Pior é a atitude das torcidas, e me desculpem os amigos gremistas, colorados, juventudistas, grenás e outros, mas chega também de tanta banalidade dentro dos estádios, também não é de hoje que essas torcidas (que não me representam) me envergonham em nome de uma rivalidade que tira dos seres humanos a pouca racionalidade que temos, dentro dos estádios se transformam em seres que beiram a barbárie, atacam famílias, pessoas, desrespeitam a dignidade das pessoas... e em nome do que tudo isso? Cansei de ver amigos se transformarem dentro dos estádios, desfazerem amizades, alimentarem rivalidades que chegam a violência física, e em nome do que ? Será que há lógica em tudo isso? O julgamento do Grêmio hoje pra mim foi uma vergonha como torcedor do Grêmio que sou e como ser humano, pois o argumento da defesa foi banal "Por que culpar o Grêmio de um comportamento que é da sociedade"? enquanto todos pensarem assim é que o racismo ainda vai caminhar tranquilamente em nossa sociedade. ainda exijo uma posição de nossas autoridades onde estão as políticas públicas de combate ao Racismo, onde estão os candidatos que agora em meio as suas campanhas nem sequer pautam estas questões?
Temos que olhar friamente para tudo o que está acontecendo, investimos em estádios, Copa do Mundo, Olimpíadas, mas não olhamos para nossa sociedade que está doente...

Desculpe o desabafo!

Por uma história menos eurocêntrica

Eu quero menos eurocentrimso e mais afrocentrismo!
Quando vamos realmente rever nossa história e contar ela pelo olhar dos que a veem ela pelo lado de baixo?
Desde sempre nosso sistema educacional balizado em modelos cartesianos reproduz uma história dos exploradores em um alógica colonial que só interessava a quem desde sempre esteve no poder. O efeito desta tradição história é uma educação linear e elitista que não d voz as camadas populares que aprenderam que seu lugar é o de subalterno, explorado e incapaz.
O Brasil precisa rever sua história com urgência, a aprovação em 2003 da Lei 10.639 é um avanço na construção de uma nova história do Brasil, no entanto ainda estamos muito longe de mudar uma história eurocêntrica que já esta impregnada na cultura da sociedade brasileira.


É apenas uma reflexão inicial e provocativa...