"A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une" Milton Santos

terça-feira, 30 de junho de 2015

O que impede a aplicação da Lei 10.639 nas escolas?

Não é de hoje que o racismo nas escolas é um assunto que tem incomodado muito os gestores públicos, pois o mesmo existe e parece não ter solução, então é mais fácil colocar a poeira para debaixo do tapete e continuar empurrando com a barriga.
A Lei 10.639 de 2003 reacendeu o debate e provocou certo mal estar na educação ao exigir que a cultura Afro seja colocada nos livros escolares, e mais do que isso estudada e abordada em várias disciplinas. No entanto, após 12 anos da promulgação da Lei a situação parece não ter mudado muito. Mas qual a justificativa para tal comodismo dentro das escolas? Medo? Dúvida? Ou puro preconceito mesmo?
As respostas parecem óbvias.
Há um comodismo sim. Professores preferem reproduzir suas aulas ano após ano, pois isso é mais fácil e não exige esforço nenhum. Métodos cartesianos se adaptam bem os objetivos impostos pela sociedade que mensuram a qualidade do ensino apenas pelas notas e não pela construção do conhecimento crítico.
Há um medo latente de lidar com algo estranho, desconhecido, pois nossos professores não foram instruídos e preparados para ensinar esses conteúdos. Sem falar no medo da polêmica. Falar sobre África ou história dos afro-brasileiros é tocar em uma ferida aberta em nossa sociedade.
Há uma dúvida sempre pairando no ar, será que é necessário mesmo? A inoperância de nossos gestores não exige o cumprimento da lei, o que coloca em dúvida o fazer pedagógico de muitos professores que se sentem em uma encruzilhada.

E por último o próprio preconceito velado que assola nossa sociedade a mais de um século. O preconceito no Brasil provoca efeitos nefastos na população negra e é dentro da escola que este preconceito cresce ao longo da caminhada escolar dos jovens. Negar este debate é tirar a possibilidade da superação desse preconceito e dar a visibilidade necessária a criança negra em sala de aula para que ela se sinta parte de uma história que nunca lhe contemplou.

A EDUCAÇÃO DEVE SER FEITA POR EDUCADORES.

 Explico. pois para alguns a frase não é auto-explicativa. 
Vivemos um momento ímpar em nossa sociedade, um momento de muita tensão social, de instabilidade política e sobretudo econômica. SegundoZygmunt Bauman, importante sociólogo polonês da atualidade, vivemos em uma sociedade líquida, uma sociedade que segundo muitos outros sociólogos é fruto da globalização e definida como pós-modernidade em que a Escola como não poderia deixar de ser, é reflexo das contradições desta sociedade. Pois para alguns, em sua visão limitada, a escola deve preparar o jovem para o mundo do trabalho, ou seja ser mão de obra para o mercado globalizado, e são esses "gestores" de educação que na maioria dos casos não são educadores, é que definem que a "sua" a escola deve produzir índices, números, aprovações. Esses gestores, não-educadores, não entendem a função básica da educação, que é a formação cidadã, e entenda-se isso como uma formação humanitária, igualitária, justa, sem pré-conceitos e emancipadora. Nossos jovens devem ser preparados para serem seres HUMANOS, para viverem em sociedade e acima de tudo contra as imposições do mercado, e não reprodutores de pré-conceitos e valores de mercado que se materializam nesta sociedade de consumo, produzindo assim uma geração de jovens alienados, consumistas, materialistas e desumanizados.
Desculpem o pequeno desabafo mas é necessário

Manifesto (em construção) por uma educação AFROCENTRISTA.



Educar para uma educação inclusiva e contra o racismo deixou de ser mero idealismo, desde 2003, quando a lei 10.639 estabeleceu o ensino da História da África e da Cultura Afro-brasileira nos currículos escolares da Educação Básica. Deixou de ser idealismo quando ainda hoje e principalmente hoje, ainda vemos manifestações preconceituosas e racistas publicamente não só dentro das escolas, mas em todos os lugares, muitos, e enfatizo MUITOS, dizem que estas manifestações só aconteceram agora por que vieram as ações afirmativas. Esses muitos fazem questão de negar o preconceito que toda a população negra sofreu e ainda sofre no dia-a-dia, pois a negação do racismo é senso comum, desde de a abolição parece que o Brasil se travestiu de algo que nunca foi, DEMOCRATA e  IGUALITÁRIO.
- "TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI, DIZ A CONSTITUIÇÃO" 
PALHAÇADA!
A democracia e a igualdade neste país sempre foram para poucos, o Estado Nacional de Direito, consagrado na Constituição de 1891, foi criado por e para uma elite branca que já estava no poder desde sempre e a nossa educação escolar, que de pública, não tem nada veio para justificar essa democracia maquiada e esta igualdade subjetiva. Pois sejamos sinceros, que igualdade é essa se nem todos partem do mesmo lugar e em igualdades de condições, ou alguém acredita que uma criança que estuda a melhor escola da cidade, frequenta os melhores clubes, vai todo o dia de carro para a escola, tem as mesmas condições, do meu aluno que mora na periferia, que vai a pé para a escola em dia de chuva, mal pode ter um lazer saudável, por que sua região é de extrema periculosidade?
Através de um história eurocêntrica, deu-se cor e voz aqueles que foram privilegiados neste processo e negou-se a outros tantos a possibilidade de se manifestar e de se ver contemplados por um Estado que realmente os representasse. 
Os valores civilizatórios recebidos por nós na escola negaram outras possibilidades de ver o mundo, sofremos um branqueamento ideológico quase fundamentalista que tirou de nós aspectos humanitários como a circularidade, a ancestralidade, a corporeidade, entre outros e mais do que isso subjugou a inteligência  a capacidade humanitária dos negros e indígenas.
Minha reflexão é crítica sim, ativista sim e um tanto revolucionária.
Sou por uma educação AFROCENTRISTA, sou por uma educação dos debaixo, por uma educação mais humana, sou por uma educação que ensine a amar e não a odiar, consumir e competir. SOU, como Oliveira Silveira, NEGRO e quero ver minha história na sala e aula!