"A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une" Milton Santos

sábado, 13 de maio de 2017

CONTINUAMOS LUTANDO!!!!


Após intensos debates no Congresso, no dia 13 de maio de 1888 a Princesa Isabel assinava a Lei Aurea, e colocava em liberdade milhares de homens e mulheres negras que a partir de então poderiam gozar de uma liberdade jamais vista. No entanto, a liberdade, ainda que tardia, não foi completa, a luta de negros e negras é uma constante até hoje, pois o ato da Princesa Isabel, foi um ato isolado que não veio acompanhado de nenhuma política pública de inclusão da população negra a sociedade, e os efeitos disso foram nefastos sobre toda essa população, que ainda hoje luta por espaço e reconhecimento. Mas continuamos lutando!
O 14 de maio apresentava a população negra uma realidade não muito festiva. A comemoração do dia anterior dava lugar à preocupação. O que comer? Onde dormir? Onde trabalhar? Sim, os negros estavam livres, mais isto não significava uma mudança social imediata. Mais de 300 anos de história de escravidão e exclusão social não se apagariam assim, de um dia para o outro, com uma simples assinatura. Um novo capítulo da história de negros e negras no Brasil estava para ser escrita e não com menos dificuldades e sim com muita luta.
O silenciamento do estado em relação à condição da população negra após a abolição fazia parte de um projeto de estado.  O “Mito de uma democracia racial” e o branqueamento da raça faziam parte de um projeto ambicioso que almeja a criação de uma República aos moldes das grandes nações europeias capitalistas. Ou seja, para que o Brasil chegasse ao patamar das grandes nações era necessário apagar o estigma de um passado escravocrata e inserir de vez o Brasil na “Bélle Époque”, modelo europeu de desenvolvimento almejado por todos.
Os efeitos deste processo são sentidos até hoje. O profundo abismo social provocado pela negligencia do estado, desde a abolição,  que estigmatizou a população negra e os afrodescendentes as condições subalternas da sociedade devido a falta de politicas públicas e a negação do problema do racismo. Tal negligencia fez com que ainda hoje essa desigualdade se reflita em profundos problemas sociais, que vão desde o campo educacional até a violência institucionalizada do estado ao penalizar a juventude negra nas periferias.
Mas há uma mudança em curso. Desde adoção das políticas de ações afirmativas no Brasil, vemos uma movimentação que emerge das ruas, das vilas, das rodas de capoeira, das rodas de samba, das batalhas de hip hop, dos coletivos jovens e chegam às universidades. É uma juventude negra misturada com a força da ancestralidade negra que faz surgir em meio a turbulência e a luta diária contra o racismo um orgulho da origem africana. É um colorido aqui, uma trança nagô ali, um “black power” acolá, e por onde se ande nesta cidade o empoderamento negro vem abrindo espaço para um novo momento do movimento social negro que protagoniza a mudança e traz para o presente, um olhar para o passado e a projeção de um futuro melhor e mais justo a toda a população negra e afrodescendente. Continuamos lutando!
(Texto original publicado no jornal A Cidade)