"A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une" Milton Santos

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

KIZOMBA: uma expressão de autoafirmação do povo negro.

A Kizomba...

Que nasce na África antes mesmo da chegada do Europeu, se ressignifica aqui no Brasil. A Kizomba é a festa do povo negro, uma celebração de nossa autoestima expressa pela arte, pela cultura e pela manifestação. É um encontro. Um encontro entre o passado e presente, entre a realidade e os mitos, é a força de uma nova história que vem sendo construída aqui no Brasil, uma história contada e vivida pelo povo negro que agora assume seu protagonismo e escancara sua beleza e sua força de expressão.


Manifesto das Mulheres Negras - Junf

Cartaz da Kizomba 2014


A Kizomba é a valorização, é a voz daqueles que por muito tempo foram calados. A Kizomba é alegria é o palco pintado de preto, é o som do tabor batendo forte no peito de todos e contagiando o público da praça.
Alguns levantam a voz para falar de luta, de conflito contra o opressor, mas nossas armas são diferentes, queremos o reconhecimento queremos a livre expressão cultural, queremos também dominar a técnica e com ela promover a verdadeira liberdade que nos foi negada durante mais de um século de abolição. Pois, só quando dominarmos a técnica, ocuparmos espaços de protagonismo na sociedade é que realmente conseguiremos a verdadeira libertação e tão a sonhada igualdade.


 Painel sobre a KIZOMBA  Artista: Braziliano

Defendemos a NEGRITUDE assumida, e o palco, a praça, é o melhor espaço para isso, defendemos as cores da África, o cabelo crespo, a estética Afro, os heróis negros de nossa história: Zumbi dos Palmares, Carolina Maria de Jesus, Luiza Mahin, Tereza de Benguela, João Cândido, Milton Santos, José do Patrocínio, entre outros. Queremos nos ver nos livros de História, nas galerias, nos Museus nas exposições. Queremos o espeço que nos foi negado...

Braziliano confeccionando o painel

Mais do que uma festa do dia 20 de novembro, é a nossa forma de refletir a Consciência Negra, de dizer que estamos aqui e que queremos espaço. Somos cultura, somos educação, somos religiosidade, somos ancestralidade, somos NEGROS e com muito ORGULHO!

Grupo de Dança Afro Ewá Dandaras do Museu Treze de Maio. Foto Andressa Duarte

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O que significa educar para a diversidade?

Na Semana da Consciência Negra o debate vem a tona. E junto com ele o questionamento, o que é a tal Lei 10.639? Por que a obrigação em aplicá-la? Eu poderia aqui elencar uma série de antecedentes históricos que justificariam esta necessidade, mas não. Vou fazer uma análise humildemente pessoal.
Desde muito jovem quando optei por ser um educador, tracei para mim um ideal. O ideal de mudar o mundo, e para isso assumi valores que me diziam que eu deveria ajudar as pessoas através do conhecimento, e que com ele estas pessoas pudessem se libertar das amarras da exploração social e estivessem prontas para exercerem sua cidadania plena.
Percebi ao longo desta minha caminhada, que a palavra EDUCADOR era muito pesada, que não bastava conhecimento, métodos, uniformes, gritos ou obrigações, educar estava além disso, era preciso acreditar no que eu estava ensinando, pensar a educação, refletir os conceitos que eu ensinava.
Optei pela história, e esta me levou a arqueologia, a filosofia  a sociologia... aos movimentos sociais, pois eu queria aprender com as pessoas. Aprendi, que eu educo para os outros, para a sociedade, para que a cidadania, aquela defendida pelos grandes teóricos e idealistas, u dia seja verdadeiramente plena.
Não são poucos os filósofos clássicos e contemporâneos que falam em um autoconheimento e de práticas que levam a isso. No entanto, a sociedade atual prefere reproduzir conceitos de economistas e políticos. Antes de falar dos conceitos dos outros temos que assumir para nós mesmos o que queremos.
Se queremos uma sociedade, precisamos ser sociais, se queremos ser humanidade, primeiro temos que ser humanos, se queremos falar em diversidade, temos primeiro é que reconhecer o outro. As legislações estão aí, LDB, PCNs o Pacto do Ensino Médio entre outros, mas será que todos nós caminhamos no mesmo sentido, rumo ao reconhecimento, a educação, as valores civilizatórios?
Bem não sei. Mas reproduzo aqui Milton Santos, ainda precisamos aprender a ser humanidade...

domingo, 16 de novembro de 2014

Sobre o republicanismo e algumas liberdades individuais.

O mês de novembro e mais especificamente a semana que acabamos de entrar, a Semana da Consciência Negra, nos remete a uma reflexão necessária.
Entre os dias 14 e 20 se novembro encontramos algumas datas simbólicas para nossa República, e entre elas destaco as seguintes: 14 de novembro Massacre de Porongos, 15 de novembro Proclamação da República e Dia Nacional da Umbanda, 16 de novembro Revolta da Chibata e 20 de novembro a morte de Zumbi dos Palmares. E não coincidentemente todas as datas remetem a uma mesma análise, sobre liberdades e direitos individuais, um tanto contraditórias, explico porque.
A dita República brasileira proclamada pelo Marechal Deodoro da Fonseca, é um muito bem acabado conceito teórico articulado politicamente pelas elites que vem a pôr em prática como dizia a historiadora Emilia Vioti da Costa, um Estado Burguês no Brasil. Um Estado liberal, com garantias individuais e Laico.
Mas a contradição se estabelece desde seu início, pois as liberdades do Estado são garantidas e asseguradas a um grupo hegemônico e específico, a burguesia, o qual não contemplava os negros recém libertos e e nem dava condições a que esses se inserissem na sociedade, mantendo e reproduzindo mesmo após a consolidação deste Estado as mesmas práticas sociais e excludentes dos tempos de escravidão.
O estado Laico por assim dizer continua, mesmo hoje, reproduzindo os ditames de uma única religião  discriminando práticas religiosas de qualquer outra forma de expressão se não a tradicional.
As estruturas criadas na república e consolidadas na constituição de 1891 justificavam e reproduziam as necessidades das camadas hegemônicas que a partir de ocuparam as estruturas de estado para controlar o sistema econômico e a sociedade.
Em síntese a República criada no Brasil nunca foi para todos e sim para poucos, a reflexão da Semana da Consciência Negra é necessária se quisermos evoluir para um Estado Plural que reconheça as diferenças e permita uma vida harmoniosa e sem preconceitos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

20 de Novembro: dia da consciência Negra! (ou branca?)

Texto publicado na íntegra no jornal Diário de Santa maria no dia 17/11/2013


Idealizado na década de 70 e defendido MNU (Movimento Negro Unificado) e pelo poeta gaúcho Oliveira Silveira o dia da morte de Zumbi dos Palmares passa a ser definido como um dia para se pensar a história e a presença do Negro no Brasil, com uma visão diferenciada e afirmativa. Desde então o dia da consciência negra põe um dedo em uma ferida aberta na história do Brasil, pois nos põe a pensar essa história com um olhar mais crítico e reflexivo. Mas será que o dia 20 de novembro não deveria ser o dia da Consciência Branca?
Explico por que.
Lendo recentemente o autor Ricardo Franklin Ferreira em sua obra “Afro Descendente: Identidade em Construção”, revi um pouco minha própria construção de identidade, mais ainda, o reconhecimento da minha negritude e minha atitude afirmativa. Na obra autor faz um estudo a partir do reconhecimento da identidade negra de um personagem, João por acaso, que facilmente pode ser comparada ao processo de formação de identidade de vários afro descendentes em nossa sociedade. Uma identidade repleta de contradições, negação, afirmação, ativismo, fruto do nosso próprio processo histórico de formação, onde me vi no personagem, mas que traz a tona uma reflexão, por que rever a minha identidade? Será que sou eu, individuo negro, que devo rever este processo?
Cabe aqui um pequeno resgate deste passado histórico de construção de uma identidade nacional, que negou, ou ainda nega a presença negra. Desde o processo de nossa Proclamação da República (1889), ou como alguns historiadores afirmam em dizer, processo de criação de nosso estado burguês, o Brasil tentou mostrar para o mundo um perfil de um estado novo, burguês, branco, pronto para ascender ao status de um estado capitalista como todo o resto do mundo. E nesse estado vigorava a tal da “democracia racial”, pois não existiam escravos nem problemas de segregação. Ou seja, negros e brancos viviam em perfeita harmonia (como até hoje!). No entanto, o Brasil de outrora nos apresentava uma falsa democracia racial, que nem de longe representava a realidade cotidiana do Brasil. O que se apresentava era um país que precisava mostrar ao mundo que queria ser desenvolvido e que as mazelas da escravidão e do colonialismo estavam superadas, e que o Brasil como a Europa estava pronto para entrar na “Bélle Époque”.
No entanto, os espaços de socialização do negro desde sempre foram segregados. Antes a senzala, depois o quilombo e mais tarde o clube social negro, se bem que esse já gozava de um ‘status’ melhor, estava dentro das cidades, na periferia, mas nas cidades, em um lugar onde ao menos os negros eram vistos. A realidade pouco mudou do século XVI para cá. O racismo de hoje é maquiado com uma série de políticas publicas que não saem do papel, pior desvelam um racismo ainda presente em nossa sociedade diariamente e que insiste em ser negado. O estado ainda não vislumbra a questão racial com os olhos da inclusão, as dificuldades são de ordem estrutural e sobre tudo etnocêntricas o que transforma as políticas públicas em meros engodos institucionais, pois perpassam pela falta de estruturas físicas, recursos humanos e investimentos, principalmente na área da educação.
E falando em educação, o debate procede neste 20 de novembro, pois em 2013 celebramos 10 anos da Lei 10.639. Lei esta que altera a LDB 9395/96 obrigando o ensino da História da África e da Cultura Afrobrasileira. Porém há muito pouco a se comemorar nesses 10 anos. A aplicação da Lei não é efetiva. O pouco que acontece em relação a aplicação da mesma acontece por iniciativa de alguns professores identificados com a causa, ou por ideais, ou por convicção étnica. E aí reside mais um de nossos problemas pois a questão da educação se configura na principal arma para superação do racismo institucional, desde que percebamos que é na formação de nossos jovens é que poderemos superar essa tradição etnocêntrica que nos ensinou desde sempre uma história linear, europeia e branca não respeitando as diferenças e a diversidade cultural que formou nosso país. No entanto os esforços institucionais para a aplicação da Lei 10.639/03 tem sido muito poucos. Os debates acadêmicos são muitos e se avolumam nos cursos superiores, mas a distância entre o Ensino Superior e a realidade dos bancos escolares da Educação Básica é muito grande, um verdadeiro abismo de contradições.
Percebemos dificuldades enormes no que tange a efetivação da mesma que vão desde a falta de recursos didáticos, falta de formação para os educadores entre outros. As escolas ainda não recebem professores com formação adequada para a aplicação da Lei pois o processo de formação de nossos educadores segue a mesma linha etnocêntrica e linear não contemplando ainda toda a diversidade da sociedade que vivemos.
Em Santa Maria o debate em torno da causa da educação e da própria consciência negra já assumiu outras proporções com a criação em Maio do GT de implantação da Lei 10.639 no município. A partir desse grupo professores, pesquisadores, acadêmicos e integrantes do movimento negro tem se reunido para discutir a questão da educação e propor ações efetivas para a superação dos problemas neste campo.
Mas a questão, como dissemos no início, supera o debate a proposição. A questão racial no Brasil deve ser debatida por todos deve ser assumida por todos independente de ideologias ou partidarismos, pois é uma questão de humanização e superação de problemas sociais que estão a nossa frente diariamente, e que negamos ao nos omitirmos do debate. A questão da superação do racismo no Brasil é uma questão que deve superar as pautas governamentais e partir para ações da sociedade civil cobrando e fiscalizando  a aplicação de leis.
No dia 20 de novembro devemos refletir sobre a consciência, negra, branca, indígena, judaica, cigana, polonesa, italiana e tantas outras que formaram e forma a diversidade cultural de nosso país, para que em um futuro muito próximo essa realidade de afirmações seja uma realidade de afirmação do povo brasileiro reconhecidamente de diversidade

domingo, 2 de novembro de 2014

Democracia e sociedade...

Recentemente estive no nordeste e lá tive uma aula de diversidade e respeito. Dentre as tantas expressões culturais que tive o prazer de observar uma em especial me chamou a atenção, o grupo de meninos do Mestre Dedé, uma apresentação cultural, verdadeiramente expressão da cultura nordestina. Filho de caboclos e quilombolas o Meste Dedé ensina a adolescentes do interior do Rio Grande do Norte a cultura de seus antepassados... brasileiros. O Mestre Dedé recebe a bolsa família e com esse dinheiro compra caixas de papelão e cria as fantasias dos adolescentes de seu grupo...
Mas não é sobre isso que eu quero falar, quero falar de democracia, ou melhor de instituições democráticas, pois não sabemos o que é isso nos limitamos a votar e dizer que não gostamos nem dos políticos nem da política. Mas até que ponto nós participamos? Quando exercemos nossa verdadeira cidadania? Bem a resposta é quase unanime.  Votamos! E depois... delegamos as decisões a outros e deixamos que eles nos representem, mas será que isso é democracia, será que estamos cientes do que estamos fazendo.
No Brasil temos o mau costume de reclamar de tudo, mas na hora de contribuir participar "eu nunca posso". Lutamos tanto por uma democracia e quando a temos não sabemos utilizá-la. Reclamar de uma eleição é democrático, mas reclamar de quem vota é um tanto incoerente.
A vida em sociedade é uma necessidade e para ela foram criadas regras de convívio consolidadas pelo nosso Estado de Direito. O Direito Moderno resultado das ideias liberais do século das luzes nos deram a noção de Estado Liberal, um estado que cria um Direito Uno, que unifica povos, culturas, sociedades e permite que dentro de um mesmo espaço as opiniões divergentes vivam e convivam...
O Brasil é um Estado de Direito aos moldes do Estado Liberal do século XVIII, "Uno", unificado, diversificado e nacional.
Por isso retomo aqui minha admiração ao Meste Dedé.


Por mais aulas de sociologia nas escolas...